terça-feira, 7 de junho de 2011

janainíces...

Transpondo, para cá, 02 contos, de minha autoria, que estavam hospedados em outro site ("O Sabe Tudo"), do qual vou deletar minha conta...
Há outros:
guardados num baú que será aberto pelos meus netos
(ok, espero ter os filhos primeiro... rs...).
Eu e minhas janainíces...
*Porque, como diria o Saramago,
"todos somos escritores; só que uns escrevem, outros não".

UM BOM CAFÉ

Era inegável: havia um quê de velado constrangimento naquele imprevisto encontro, no café-literário, apesar do abraço sinceramente carinhoso que trocaram.
Sim, após tantos anos, ambos estavam muito mudados. Muito mudados…
Também fisicamente.
Mas, não era apenas isso.
Sim, houvera uma história. Não de amor. Não de romance. Não de filme. Apenas o era uma vez de duas pessoas que, um dia, por solidão, tentaram permanecer juntas.
Não funcionou.
De tentativa em tentativa, haviam consumido longos anos de suas vidas e de seus sonhos, num vai-e-vem dolorido… E, finalmente, haviam sucumbido à muda eloqüência das tantas palavras caladas à época das infinitas (e desgastantes, e humilhantes, e infrutíferas) tentativas de “reconciliação”…
O afastamento foi inevitável. Sem palavras. Sem explicações. Não havia, mesmo, o que dizer.
O tempo passou.
Agora, a maior mudança traduzia-se num olhar diferente de um para com o outro, e, principalmente, de ambos para com a vida… Novas histórias foram escritas. Novos quadros foram pintados. Novos filmes foram dirigidos. E estavam felizes, cada um com seu novo enredo, protagonizando suas novas versões de si mesmos… Era o que aquele olhar dizia…
E, secretamente, se reconciliaram com o passado, aquietando as lembranças.
E, por fim, trocaram mais um carinhoso abraço. E, despediram-se… Ele, encaminhando-se ao seu novo local de trabalho; ela, com um exemplar de Perdas e Ganhos às mãos, à procura de um bom café…
Um bom café para celebrar a novidade da vida.
Um bom café para aquecer a alma e… finalizar, de vez, antigas histórias!
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SOB O TESTEMUNHO DA LUA CHEIA

Fazia calor. Sozinha, em seu quarto, ela assistia à segunda entrevista daquela madrugada insone, escutando, distraída, o que considerava serem as asneiras de um escritor famoso (e perdido em suas fantasias), quando foi surpreendida por gritos…
Gritos nada fantasiosos. Gritos reais. Gritos de mulher apavorada. Pedidos de socorro, pungentes Deus, me ajuda! em meio a soluços e lágrimas, numa rua deserta, aparentemente sob o único testemunho da lua cheia…
Desligou a TV, apagou a luz (aprendera, desde criancinha, que moça recatada jamais deveria se expor, numa janela, sem os devidos cuidados) e, preservada pelo escuro protetor, correu para a sacada de seu quarto, no último andar do prédio, para tentar descobrir do que se tratava… Ninguém. O mais completo vazio. Mas os gritos continuavam. Cada vez mais altos e mais insistentes. Foi quando a moça recatada da penumbra pode vislumbrar a silhueta cambaleante de uma mulher…
A mulher parecia violentada. No corpo. Na alma.
E, no breve instante em que ela apareceu caminhando pela calçada, em passos trôpegos, sob a lua da lua cheia, a recatada da sacada também se sentiu violentada. Violentada por sua própria incapacidade diante daquela situação… Não, não deu tempo de chamar a polícia, os bombeiros, os médicos, ninguém… O vulto desapareceu muito rapidamente.
Ficou, apenas, o (ensurdecedor) eco de seus gritos, testemunhado (ela sabe) por tantos outros vultos escondidos, covardemente, nas recatadas penumbras das sacadas e, principalmente… pela luz da lua cheia.
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