segunda-feira, 6 de junho de 2011

MULHER PERDIGUEIRA...

Este é o último livro de crônicas do Fabrício Carpinejar, vencedor do "Prêmio Açorianos de Literatura" e mulher perdigueira é uma delas.

O autor, como todo bom gaúcho (olha aí o meu lado farrapo pulsando nas veias... rs... rs... rs...), tem umas tiradas ótimas e uma observação muito peculiar da realidade. Óbvio que não concordo com tudo o que li no livro, mas confesso que gostei muuuuuuuuuuuuito... rs... rs... rs...

Aí vão alguns excertos, para deixar o "gostinho":
"(...) Não sou favorável à indiferença, à independência, ao casamento sartreano. Fui criado para fazer puxadinho, agregar família, reunir dissidentes, explodir em verdades. Duas casas diferentes já é viagem, não me serve. Aspiro ao casamento pirandelliano, um à procura permanente do outro. Sou um totalitário na paixão. Um tirano. Um ditador. Não me dê poder que escravizo. Não me dê espaço que cultivo. Não me eleja democraticamente que mudo a constituição e emendo os mandatos. Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada quinze minutos para contar uma ideia ou uma nova invenção para salvar as finanças, quero uma mulher que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime. Que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu. (...) A mulher que não sabe amar recuando e não tolera que eu ame atrasado. Que parcele em dez vezes seu dia, que não pague a conversa à vista na hora do jantar, que não junte suas notícias para contar de noite como um relatório. Admiro os bocados, as porções, as ninharias. (...) Não me interessa um tempo comigo quando posso dividir a eternidade com alguém."
 
"O conceito masculino é esquisito, feito de verdades parciais. Há sutilezas inacreditáveis em seu raciocínio. Não enxerga problema em pular a cerca desde que não visite a casa. Alega que não tem segundas intenções, mas troca sorrisos abobados com terceiras."

"Não custa avisar. Cuide de sua mulher antes que ela se interesse pela vida de outra esposa."

"Posso estar doente, triste e enjoado, o cinema me acalma. Um tempo comigo, um outro ritmo, pouco a resolver. O cinema não me cobra decisões, não me cobra palavras. Ele respeita meu silêncio de ervas daninhas. Arboriza a barba com lã e quietude. Protege-me da chuva e dos ruídos do estômago. O cinema me cura da tosse, da covardia de morrer, da incompreensão do trabalho. O cinema é um hotel. Ao definir a poltrona, estou escolhendo um quarto. Deixo o filme resolver o que estava desorganizado."

"O curioso é que ninguém é louco sem testemunhas. (...) Isolados da audiência, apenas choramos e manchamos o travesseiro. (...) Analisamos o lugar da queda, para verificar se é confortável, e se haverá pessoas do bem para nos amparar e nos carregar no colo. Não é assim?"

"Mulher palitando os dentes teria que usar burca."

"Em conversa de pescador, meu avô explicava que o mar é um imenso tédio para quem procura peixes; deve-se procurar unicamente o mar, e o cardume não deixará de vir."