quinta-feira, 14 de julho de 2011

BORRALHEIRO

Ontem, eu concluí a leitura de Borralheiro, do Carpinejar.
*O anterior, Mulher Perdigueira, foi mencionado AQUI.

Na verdade, eu curti mais o anterior. Mas esse aqui também é uma delícia de leitura. E como não podia deixar de ser, uma (entre várias) crônica me chamou (tipo: muuuuuuuuuuuuuito... kkkkkk) a atenção (guardando as devidas proporções, a pergunta que não quer calar é: por que será??? kkkkkkkkkkkkkkkk):

SOGRO
O sogro é um tipo temido, e não tem lógica ser diferente. Seu papel é defender a filha do desamor, e, principalmente, do amor. Quando acolhe muito bem um candidato no primeiro encontro, desconfie do fim próximo da relação. Sugere que sua namorada troca de parceiro toda semana. Deve estar acostumado a receber a sequência de namorados e não perderá tempo comprando briga ou testando personalidades. Afável e carinhoso na aparência porque convicto de que não precisará mais vê-lo. A reação do sogro entrega mais o passado da moça do que hipnose. Expressões simpáticas como “a casa é sua” ou “volte sempre” indicam o contrário. Sogro algum oferece a intimidade de bandeja.
Ele tem mais regras do que CTG. Dissimulado, não expressa diretamente o que sente. Sogro bondoso não existe se a paixão é verdadeira. Somente gostará de você se tem ganas de enforcá-lo. Genro é o filho indesejado, onde não se oculta o desejo de aborto.
Não tive facilidade com a Cínthya. Não sou príncipe, nem o cavalo branco. Doutor Ciro, seu querido pai, foi meu serviço militar, logo eu que não servi.
Ele me tratou tão mal, que suspeitei da chance de casamento. Não era um problema, mas um trauma: homem oito anos mais velho, dois filhos, separado, escritor e de unhas pintadas. O que poderia ser pior para quem alimentava esperança de um partido perfeito? Como explicar que sua Barbie largou o sonho do Ken e se encontrava escondido com Frankenstein?
Ou ele se matava ou me matava. Adotou a segunda opção. Apareci num almoço de sábado e ele me ignorou, sequer pronunciou meu nome. Duas horas de completa invisibilidade. Cínthya se esforçou para me introduzir no seio familiar. Não saiu leite, apenas pedra. Ela arriscava:
– O Fabrício é colorado, tem cadeira no estádio...
E Dr. Ciro pedia para passar a salada, enterrava assuntos com a contundência do garfo.
Depois, em casa, reclamei da humilhação. Generosamente, a namorada reeditou uma revanche. O Natal permitiria a quebra do silêncio. Comprei um uísque 12 anos. Não esperava nenhum pacote, só rezava para não embrulhar novamente o estômago. Mas ele me entregou uma sacolinha. Despejei uma gargalhada infantil, a felicidade existiu até desvendar o conteúdo. Uma camiseta rosa! É evidente que ele insinuava a homoafetividade de meu estilo. Agradeci, e abandonei a fé para curtir o inferno.
Ele não confia em mim apesar dos dois anos de convivência, porém lança sinais de que me suporta. Um dia chegou até a me telefonar, não descarto a hipótese de engano. Outro dia, confessou que pretende ensinar meu filho a assar churrasco – faço de conta que não entendi a provocação.