sexta-feira, 1 de julho de 2011

janainíces...


NUDEZ
Na penumbra do sonho... ela estava nua.
Completa e vergonhosamente... despida.
Petulante exposição, fora de contexto e lugar.
Não fazia a menor idéia de como havia chegado ali, naquele estado.
Porque o ali era uma Igreja.
Antiga.
Olhos de reprovação censuravam tão bizarra negligência. Claro.
Sem piedade. Óbvio.
Mas, em sua cabeça, era apenas confusão...
E ela aninhava-se, cada vez mais, no canto do banco, enrubescida e perplexa de sua inconveniente fragilidade.
Esperava um cobertor, um casaco, um carinho, um... olhar humano que, de forma complacente, a enxergasse através da sua nudez, apesar da sua nudez, ou, quem sabe... por causa de sua nudez.
Ninguém.
E, quanto mais se encolhia no cantinho escuro do banco, em posição fetal, numa tentativa involuntária de resgate do abrigo perdido, mais se sentia exposta às vetustas paredes que a julgavam sem misericórdia...
Porque, no fundo, naquele momento, ela também julgava, a si mesma, expostas as suas intimidades, sem nenhuma parcimônia.
E, sabia: consciente da própria hipocrisia, era seu mais implacável juiz.
Sempre fora.
De repente... surge um menino.
E, o que já se transformara em pesadelo, volta a ser sonho!
Um menino que não condena.
Um menino que se senta ao seu lado e, reconhecendo – nela – aquela que, um dia, naquele mesmo Templo, lhe passara a fé de seus antigos pais, se compadece de seu deplorável estado desnudo... E a protege da humilhante exposição.
Sem necessidade de palavras.
Então, do banco da Igreja, de repente, vão brotando panos, panos, panos... que, respeitando sua dor e envolvendo-na com sutileza, cobrem-na devagar...
E, ao acordar, ela pode lembrar, bem mais tranquila, que, ao final do sonho, sentiu-se novamente inaugurada, naquele lugar, pelos olhos de Deus, do menino e... dos demais.

Agora, desperta, necessitava - apenas - de...
mirar-se, corajosamente, no espelho.
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