terça-feira, 9 de agosto de 2011

TREM-BALA

Leitura finalmente concluída!
kkkkkkkk
É que, no meio dela, acabei fazendo pausas para "A Vida Secreta dos Grandes Autores" e "As Chaves da Perseverança".
Bem... Este é mais um dos livros de crônicas da gaúcha Martha Medeiros.
Na verdade, o de que menos gostei, até agora...
:(
Neste, ela parece ter dado vazão mais esplícíta a um pragmatismo explícito demais para o meu gosto e às mordazes críticas sobre fé e religião...
Mas, mesmo assim, algumas crônicas tocaram-me profundamente e elejo a que dá título ao livro, para que vocês se deliciem com o estilo da autora:

"Quando a novela Pantanal entrou no ar, foi aquele susto. Cenas que duravam dez minutos, sem cortes. Tomadas contemplativas da natureza. Longos banhos de rio, um pássaro sobrevoando as árvores em solow motion, o olhar sonolento de um jacaré exausto. Os índices do Ibope dispararam. O povo, acostumado com a estética do videoclipe, aquele frenesi de imagens picotadas, finalmente descansava em frente à televisão.
A vida lenta é como uma novela que passou anos atrás e que só pode ser resgatada pela memória: não existe mais. Não há mais tempo para closes. Não há paciência para uma paisagem, para um deslumbramento, para um silêncio. Ao menos não aqui, nos trilhos urbanos, onde todos assistem à vida passar como se estivessem na janela de um TGV.
Os trens de longa distância não têm romantismo, não param em cada estação nem são ambientes propícios para a investigação de um Hercule Poirot, pois não daria tempo de descobrir quem é o assassino. As distâncias foram encurtadas. Chegamos rápido ao nosso destino. Já não há prazer no percurso, estamos constantemente cumprindo metas e criando outras, numa viagem que não termina. O assassino, Monsieur Poirot, é o relógio.
A edição de videoclipes é a cara da vida real. Overdose de informação, gente desfocada e uma certa vertigem. Mudam-se regras e valores em segundos. Paixões começam e terminam, pessoas nascem e morrem, empresas crescem e sucumbem, nada mais é secular: no máximo, pertence a esta década, que já está tão antiga quanto o dia de ontem.
Empurrados por este ritmo alucinante do cotidiano, fazemos uma leitura dinâmica dos fatos, entendendo por fato não só o terremoto, a eleição ou a cotação do dolar, mas nossa dificuldade em administrar uma relação amorosa, o valor que tem um parto normal ou a importância do humor nas horas ingratas. Fatos pessoais, diários, que mereceriam uma espiada menos veloz. Não quero dar ao Governador Itamar Franco a idéia de ressuscitar as marias-fumaças. A vida não vem com air-bag: uma freada agora, a esta velocidade, seria fatal. Em frente, então. Mas que cada um saiba criar sua área privativa de descanso: um livro no final da noite, um fim de semana na praia, uma caminhada pela manhã, uma meditação básica. Refúgios que permitam continuar seguindo a viagem sem perder a melhor parte, que é nossa reflexão sobre o que acontece lá fora, já que não dá para saltar deste trem-bala."