terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Cerejeiras em Flor...

Sim,
depois do choque de brutalidade de Irreversível
eu PRE-CI-SA-VA da delicadeza de um filme como
Hanami - Cerejeiras em Flor!!!

É um filme verdadeiramente inquietante...
Mas com uma sutileza de detalhes que arrepia, literalmente, em algumas cenas...
Esta crítica traduz, muito bem, o que se pode esperar da película:

"Um filme sobre a efemeridade da vida.
Tomar consciência da própria morte, ter noção de que seu tempo de vida está limitado por alguma doença, sem dúvida é algo muito doloroso e este tema já foi mote de uma série de filmes. Curioso pensar que, mais doloroso que isso, pode ser a experiência de saber que não você, mas justamente o seu cônjuge, o amor de uma vida toda, é que está para partir, sem saber, quando apenas você tem o conhecimento do fato.
Partindo dessa ideia original e comovente, Hanami – Cerejeiras em Flor, da diretora alemã Doris Dörrie, é um filme que aborda de maneira bastante sensível mas com bastante sobriedade a questão da finitude da vida, do aproveitar a existência frente à consciência da morte, dos valores fundamentais como o elo afetivo entre as pessoas e a onipresença da vida no mundo em objetos e detalhes. Porém sem cair em armadilha e clichês melodramáticos típicos de filmes norte-americanos com a mesma temática, como no razoável Antes de Partir.
Um fator interessante é que a trama está baseada nos elos familiares de uma família típica alemã, porém todo o enredo é gradativamente imerso no universo da cultura japonesa, dada a paixão de Trudi pela cultura oriental. Trudi é a esposa que esta ciente da doença terminal do marido Rudi, mas quem acaba falecendo silenciosamente em virtude do sofrimento é ela. Rudi, sem saber que sua vida também está próxima no fim, vai tentar encontrar algum sentido para sua existência no lugar onde sua mulher sempre sonhou em estar: o Japão, mas precisamente no Monte Fuji.
Logo no início de Hanami – Cerejeiras em Flor, os primeiros planos já anunciam o amplo uso da simbologia oriental para compor a narrativa: gravuras orientais servem de fundo para os créditos de abertura, imagens irão remeter o espectador diretamente ao trabalho de xilogravura do mestre japonês Hokusai na sua série “36 vistas do Monte Fuji”, como na sua célebre obra “A Grande Onda de Kanagawa”. Há um grande uso simbólico do Monte Fuji no filme, mas não só ele – é um filme guiado pela simbologia e pelas conseqüentes analogias que estas permitem. Trudi demonstra grande afeto por moscas, que ela as chamas de “efemérides”, pelo fato de que vivem apenas um dia. Quando em visita aos filhos e netos em Berlim, cada qual ocupando a vida com trabalho e videogame, sua filha mata uma mosca, fato que ela aponta como um assassinato – mas ninguém dá atenção a isso, já que estão suficientemente dopados e alienados.
Na cultura oriental, da mesma forma há o culto a flor da cerejeira, uma presença marcante no filme – e que dá o título em sua versão brasileira. Originária da Ásia, a cerejeira era associada ao samurai cuja vida era tão efêmera quanto a da flor que se desprendia da árvore. Sua flor é tão bela e breve, que deve se aproveitar a sua presença e admirar sua beleza intensamente. Não obstante, ainda há a presença do “batô”, a dança típica japonesa, que como a jovem praticante de 18 anos do filme aponta, é a dança das sobras, onde se pode comunicar até com os mortos.
Estilistacamente, a direção de Doris Dörrie é muito elogiável. A diretora habilmente intercala planos de diálogos com centenas de planos de objetos e detalhes, compondo uma narrativa bem sicrética, onde tudo parece comunicar algo de importante, guardar um segredo sobre a vida. Há uma notável sobreposição de planos abolutamente estáticos de cenários e externas, porém em diálogos a câmera movimenta-se livremente com uma certa instabilidade angustiante, remetendo, provavelmente, a linguagem da diretora japonesa contemporânea Naomi Kawase. Mas a fotografia como um todo tem um cuidado de esteta.
Por tratar de questões centrais como elo familiar, vida e morte, e sem recorrer a discursos inflamados cheios de moralismo, Hanami promove uma imersão na reflexão dos personagens para o espectador. Em dado momento, o filho “pródigo” do casal, que abandonou a família para viver no Japão, ao comer um prato feito pelo seu pai, cai em lágrimas. Sabemos que aquela é uma receita de sua falecida mãe, que está acontecendo ali algo que já no século XIX era um recurso narrativo conhecido como a “memória involuntária”, algo que Marcel Proust usou em Em Busca do Tempo Perdido: o simples gosto de um biscoito pode trazer a lembrança de uma vida à tona. Hanami – Cerejeiras em Flor é cinema que está nesta categoria.
(Juliano Mion)"

SUPER RECOMENDADO!!!