terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL!!!!

Totalmente cega pelos holofotes que enfeitam as lojas nesta época do ano (convidando ao consumo desenfreado), surda pelas chatíssimas musiquinhas comerciais que invadem a progração da TV, e tentando "encontrar" o MENINO JESUS em meio a tanta rena, boneco de neve, árvore dançante, urso que fala, duendes (oi?!) e toda a família Noel (aff... rs... rs.. rs...), queria deixar-lhes, leitores queridos deste blog, com todo carinho, uma pequena seleção de ÍCONES DA NATIVIDADE, de origem russa e grega!!!

Os ícones, diferentemente dos quadros "normais", trazem, em sua concepção, não apenas uma imagem isolada, mas toda uma catequese. Surgiram no período bizantino, por volta do século V. Infelizmente, a partir do século VIII, a Igreja do Oriente assiste, desolada, à destruição em massa das peças sacras e à proibição de voltar a produzi-las, o terrível período iconoclasta. Somente no século XII é que a iconografia voltaria a ser liberada e, nos anos seguintes, estimulada e incrementada, chegando ao seu apogeu na Rússia, especialmente com as produções do famosíssimo Andrei Rublev. E, num momento em que o nível de escolaridade e o acesso às Escrituras era restrito a uma minoria (e põe minoria nisso!), os ícones tiveram um papel fundamental na passagem da fé às gerações futuras. Por isso, a iconografia era considerada como a "Bíblia do povo", uma "janela do infinito aberta sobre o finito"!
;)

E, por apresentar, de forma tão direta, a história da salvação, um ícone não é "pintado"; é "escrito" pelo artista que o produz. E, importante: os ícones ortodoxos nunca são assinados por seus "criadores" (porque o iconógrafo tem consciência de que, em jejum e guiado pelas Escrituras e pelos escritos patrísticos, trabalha para a glória de Deus e que o verdadeiro artista é o Espírito Santo!). O registro da "autoria", portanto, se mantém por tradição oral ou escrita. E, mesmo que os ícones sejam produzidos a partir de um modelo comum, jamais haverá 2 ícones totalmente idênticos.

A questão do material utilizado também tem grande relevância: a madeira nobre, o tecido de linho puro, os pigmentos também nobres (que não podem ser artificiais), o alisamento das várias camadas de tecido utilizando pedras para um polimento perfeito, o ouro de 22 ou 23 quilates... Da mesma forma, a questão da luminosidade também tem grande relevância: não há sombras num ícone (porque Deus é luz!) e a luz projetada nos rostos indica a transfiguração.

A coloração predominante também tem um porquê: o ouro demonstra a realeza e convida o homem a se purificar no encontro com Deus; o marrom púrpura também reporta à realeza; o branco à pureza; o vermelho, ao amor ágape e à juventude e, em última e profunda análise, ao martírio; o azul ao mistério da divindade; o verde à esperança...

Enfim...
Eu amo esse tema!!!
:))
E, especificamente sobre os ÍCONES DA NATIVIDADE, é importante frisar que eles são a base de toda a iconografia oriental, já que, a partir dos Concílios de Nicéia (325), de Constantinopla (381), de Éfeso (431) e da Calcedônia (440), a Igreja elaborou e consolidou o que poderíamos chamar de "Teologia da Encarnação" que é a base de toda a fé cristã, já que Jesus se encarnou por amor a nós, viveu em nosso meio por amor a nós, fez milagres por amor a nós e, principalmente... deu sua vida por amor a nós.

Então, vamos aos ÍCONES!!!!

01. Este primeiro, bastante clássico, baseia-se, também, em evangelhos apócrifos (que são algumas vezes resgatados para fins de estudos exegéticos e históricos): ao centro, vemos o recém nascido, velado por um Anjo e reverenciado pelo boi e pelo jumento, numa alusão direta à Is 1,3 que diz: "o boi reconhece seu dono, e o asno o estábulo de seu senhor". Sim, porque o boi e o jumento reconhecem-no e, por isso, podem adorá-lo. Mas nós, tantas vezes, não reconhecemos o nosso Deus... O Menino, então, parece sair das trevas, porque "Deus é luz!", num reporte às trevas da morte, rompidas pela sua encarnação. Maria descansa ao seu lado, deitada sobre um manto vermelho que lhe concede o símbolo da realeza. Neste ícone, ela é, fundamentalmente, a Theotokos (a "Mãe de Deus", conforme dogma proclamado no Concílio de Éfeso!). Descansa, principalmente, na vontade do Senhor. A vontade de Deus foi cumprida, o fiat (faça-se!) dado, por ela, ao Arcanjo Gabriel, foi plenamente realizado pelo Espírito Santo. Nasceu Jesus, que não é fruto de seus esforços ou da sua união com nenhum homem!!! Enquanto descansa, Maria parece meditar, também, nos acontecimentos futuros, reservados a seu Filho. Ao mesmo tempo, observa, atenta, o que acontece com José, sentado, pensativo, no canto inferior esquerdo. À sua frente, uma figura horrenda o atormenta e tenta enchê-lo de dúvidas. É o demônio. Esse velho, falso pastor, vestido com pele, numa alusão também à passagem do evangelho que menciona os "lobos em pele de cordeiros", de uma forma sutil o convida a duvidar do Mistério da Encarnação de Cristo, a duvidar da virgindade de Maria, a duvidar de que tudo aquilo é, mesmo, obra do Espírito Santo. E o demônio vem com um bastão seco, mostrando a José que, "assim como daquele bastão não pode sair vida, também de uma virgem não pode nascer um filho", e que, portanto, José está sendo enganado... Mas José contempla a vida nascendo de outros galhos, anteriormente secos (as plantinhas em volta) e pode, então, voltar a combater com o pai da mentira. Do lado direito, no meio do ícone, um pastor, com sua trombeta, convida dos outros pastores a virem adorar o recém nascido. Do lado esquerdo, na mesma direção, os 3 Reis Magos (figura de todos os povos e nações) chegam para adorá-lo. Acima do Menino, como que fazendo uma "ponte" entre o céu e a terra, a Estrela de Belém, hoje também vista como a Estrela da Evangelização. E, por fim, no canto inferior direito, uma alusão ao Batismo (mulheres que dão banho num menino numa pia batismal), ao qual Jesus também se submeterá.

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02. Este segundo ícone é basicamente idêntico ao primeiro, mas aqui a Virgem é quem vela o Menino. E está numa posição de adoradora diante d'Ele, agora revestida do manto púrpura da realeza!

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03. Aqui, o mesmo conceito, só que com uma "multidão de Anjos" velando o acontecimento:

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04. Neste, uma imagem que se assemelha, bem mais, à representação mais popular que conhecemos, que é o PRESÉPIO de São Francisco de Assis (muito posterior ao início da produção dos ícones), em que vemos José totalmente inserido na cena:

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05. Idem, só que com uma peculiaridade (o Menino está deitado numa coroa de espinhos).

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06. E, por fim, um retábulo, o meu favorito, em que, se eu não estiver totalmente enganada, Maria está representada como a Eleusa (pronuncia-se "eleúsa"), a "Virgem da Ternura" ou do "Doce Beijo":

IMPORTANTÍSSIMO:
Vocês devem ter percebido algo: em todos os ícones mostrados, o Menino Jesus está envolto em faixas, como uma pequena múmia. E sua "manjedoura" é um túmulo (ou uma coroa de espinhos). Este é um tema muito precioso à iconografia: representar o nascimento de Jesus já "imbutindo" as características da sua missão salvífica. Jesus se encarna para redimir, para salvar a humanidade, escrava dos seus pecados pelo medo da morte. E essa salvação dar-se-á através de sua morte e ressurreição. Não há como fugir disso. Também por isso, um dos Reis, segundo a tradição, oferece-lhe a mirra, produto utilizado na conservação dos corpos, por suas propriedades embalsamadoras e mumificantes, conhecidas desde o Egito antigo.
;)

Enfim...
Mais uma vez:
UM FELIZ E SANTO NATAL!!!!!
E, como dizia São João Damasceno (séc. VIII),
"que, um dia, nos tornemos ícones ambulantes"!!!