quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Eles se acreditavam ilustres e imortais...

Leitura concluída ontem, de Michel Ragon, pela Editora DIFEL, com tradução de Marcelo Rouanet: a suscinta narração de histórias de 11 personalidades mundiais (da literatura, música, política, arquitetura...), que se consideravam "ilustres e imortais", mas morreram no mais completo abandono...
EXCELENTE!!!
#pararefletirmuito

01. Alexandre Dumas (1802-1870):
"Mesmo só podendo se deslocar em poltrona rolante, ele não está aleitado. Gigante curvado, só consegue se levantar de seu assento com o apoio das mãos. Levanta-se. Quanto a andar... As pernas já não o sustentam mais, seu corpo está deveras pesado. A alta estatura diminuiu. Esse colosso se tornou massa informe. Os desconfortos da velhice o atormentam. Seu sexo, do qual tanto se orgulhara, agora o envergonha. (...) Seu corpo, motivo de orgulho e robustez, tornou-se fardo. Perece, desloca-se, afunda. A memória fabulosa, que lhe permitiu ressuscitar séculos de história, perde-se, fraqueja. Ele procura as palavras, quebra a cabeça para uma simples réplica. Tanto que não tem mais vontade de escrever, de ler. Não tem mais vontade de nada."

02. René Descartes (1596-1650):
"Ele, que tanto repetira que viveria além de um século 'evitando os erros que costumamos cometer', não evitou o erro supremo, o de se deixar importunar por uma louca. Descartes acreditava que a rainha o amava (quer dizer, amava seu espírito), e ela o matou."

03. Gustave Courbet (1819-1877):
"Sua obesidade suscita a espirituosidade dos caricaturistas. Bola, cisterna... Existe pintor mais caricaturado do que Courbet? Certamente não. Sua figura gargantuesca é onipresente; gargantuesca porque é sempre desenhado enorme, barrigudo, bundudo, fumando cachimbo, com paleta e desenhos a tiracolo. Tudo é ridicularizado. Nenhum quadro de Courbet é poupado pelos caricaturistas, que tornam risíveis as obras que hoje admiramos no Museu de Orsay. (...) A obesidade de Coubert é tamanha que, não conseguindo passar pela porta - estreita demais para ele - do compartimento de viajantes do trem para La Chaux-de-Fonds para se tratar com banhos de vapor, deve se contentar com vagão de carga com as portas abertas."

04. Alphonse de Lamartine (1790-1869):
"Eu não vivo, sobrevivo. Envelheço sem posteridade em minha casa vazia."

05. Knut Hamsun (1859-1952):
"Quando lhe mostram filme sobre os campos de concentração nazistas e o horror da Shoah, Hamsun fica estupefato. Ele ignorava isso. Jamais soube de nada. Vivia em seu mundo fabuloso e antiquado, isolado em sua celebridade."

06. Piotr Kropotkin (1842-1921):
"Em novembro, escreve: 'Que fazer?' Sua desilução é completa. Kropotkin se vê traído. Lênin é um impostor. 'Atualmente', escreve, 'a revolução russa vive fase em que comete atrocidades, arruína o país, em sua demência aniquila vidas preciosas... E, enquanto tal força não se desgastar por si, como acabará fazendo, nós nada poderemos fazer.'."

07. Ezra Pound (1885-1972):
"Esse homem, cuja beleza e inteligência foram celebradas, não passa de ser miserável, precocemente envelhecido, descarnado, alucinado. Seus amigos ilustres alegam loucura, evitando-lhe a pena de morte. Ao juiz que lhe pergunta seu nome, responde: 'Eu não sou ninguém.'."

08. Georges Clemenceau (1841-1929):
"'Há três dias, apossei-me de meu céu, de meu mar e de minha areia... Vivo envolto em camarões, lagostas, sem falar de uma espantosa carpa japonesa'. Expulso da vida política, Clemenceau se compraz em seu exílio. A René Benjamin, que o visita, admirando-se de seu isolamento, ele replica: 'Estou livre.'."

09. Fréhel (1891-1951):
"(...) Os companheiros da Belle Époque ela perdera definitivamente. E toda essa gente que vinha escutar sua miséria, era perceptível que Fréhel só tinha desprezo por eles. Uma espécie de estupor melancólico e doloroso nos tomava a todos. Não era mais cinema, mas a verdade verdadeira, como dizem as crianças. O botequim da Mouffe soava mais verdadeiro do que a casbah de Alger. Prendia-se a respiração. Ninguém se atrevia nem a aplaudir."
*Sobre esta aqui fiquei altamente curiosa, por causa da cena do filme Pépé le Moko, em que ela, já mais velha e bastante emocionada, canta "Où est-il mon Moulin d'la place Blanche", citada no livro. E eis que o "maravilhoso mundo do youtube" veio em meu socorro (kkkkkk):

10. Françoise Sagan (1935-2004):
"Tudo o que foi sua vida brilhante desmorona. O castelo de Breuil é hipotecado, o fisco leiloa o de Roquemanville. Suas contas bancárias são bloqueadas. Todos os seus recebimentos são confiscados, exceto o mínimo vital, que não lhe permite pagar nem mesmo o aluguel de pequeno apartamento na rua de Lille, em Paris. Caminha com dificuldade, quebra uma perna, arrasta-se de hospital em hospital. (...) É então que o título de seu primeiro livro se torna premonitório: Bom-dia, tristeza. (...) Françoise só se desloca em cadeira de rodas e com máscara de oxigênio. Devem lavá-la e vesti-la."

11. Le Corbusier (1887-1965):
"Às vezes o Antigo ia até a arrebentação, voltava e começava a desenhar na areia molhada. As crianças, curiosas, acorriam e, decepcionadas, só percebiam riscos sem figuras. Quadrados, retângulos que o desconhecido comparava, cuidadosamente, ficando ocasionalmente pensativo ou perplexo. 'Por que você não faz um castelo?', perguntou uma criança. O Antigo sobressaltou-se, como se lhe tivessem batido no ombro, e tartamudeou: 'Um castelo, veja só. E você, mora onde?'. O Antigo apagou encolerizado seu desenho e mergulhou nas ondas."