terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

CLARICE,

E, finalmente, eu concluí, nesta madrugada
(depois de muuuuuuitos dias),
a leitura da biografia CLARICE, (assim mesmo, com vírgula),
de Clarice Lispector!!!
Mas... ok, eu mereço um desconto:
o livro, na edição "de bolso" tem 748 páginas, né?
*Só por isso a demora na leitura...
;)
Bem, o que dizer da obra, de Benjamin Moser,
traduzida por José Geraldo Couto???
EX-CE-LEN-TE!!!
Realmente assustadora a identificação que tive com alguns medos, incapacidades e inadequações da autora.
Tantas vezes, vi-me "nela"...
E não foi nada fácil esse processo.
:(
Bem, voltando ao livro em si, queria tê-lo lido ANTES de visitar, em 2009,
a exposição sobre a autora, ocorrida aqui no CCBB...
:(
Teria compreendido muitas coisas que,
à época,
me pareceram muito estranhas...
*Talvez porque denunciassem o que trago dentro.
Enfim...
LEITURA
SUUUUUUUUUPER RECOMENDADA!!!
*
Ah, falando sobre a minha cidade,
um dos textos de CL,
transcrito na página 476:
"Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. Se eu morresse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais. [...] De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é a paisagem da insônia. Nunca adormece. – Aqui ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se. – Eu queria ver espalhadas por Brasília quinhentas mil águias do mais negro ônix. – Brasília é assexuada. – O primeiro instante de ver é como certo instante de embriaguez: os pés que não tocam a terra."
*
AQUI, um artigo interessante sobre o livro:
"(...) Benjamin apresenta Clarice. A começar pelo sentimento de não pertencer, e o desejo de pertencer, que acompanhou a escritora por toda a vida, fosse ela a adolescente do Recife, a mulher de diplomata na Europa ou a escritora elevada ao posto de ícone no Rio de Janeiro. Clarice nunca sentiu pertencer a lugar algum, por mais que quisesse. Trabalho de pesquisa primoroso, que ultrapassa as fronteiras do Brasil e chega a Tchechelnik (...). Ali, numa região de vistas a colinas verdes, a gente fica imaginando quem seria Clarice se a guerra não tivesse feito sua família migrar ao Brasil. Quem seria Clarice se tivesse crescido ali, na aparente calmaria de uma região de fronteira que, nos séculos 15 e 16, eram os impérios turco e polonês. Nessa cascavilhada no baú de memórias de Clarice, conhecemos seu avô, Shmuel Lispector - um personagem clariceano por excelência. "Protótipo do judeu estudioso e devoto do Leste Europeu", por toda a vida foi fiel ao mandamento que proíbe a reprodução da figura humana e, por isso, nunca permitiu ser fotografado. Além do excelente trabalho de pesquisa, Benjamin Moser acrescenta muito à biografia de Clarice quando estabelece um percurso de compreensão da escritora. Do começo ao fim do livro, o autor defende que a vida e a obra de Clarice tiveram como principal motivação a busca de Deus. Parte do lugar-comum cabalístico "Deus é nada" e chega à frase de uma das mais célebres personagens de Clarice, G.H.: "Deus é o que existe, e todos os contraditórios são dentro do Deus, e por isso não O contradizem." Mostra também uma face desesperada de Clarice, como no episódio do incêndio em sua casa, quando sofreu queimaduras de terceiro grau na mão que usava para escrever, e também nas pernas. Além da dor, que fez a escritora gritar pelo passado, pelo presente e pelo futuro, o acidente parece ter sido o início de um processo (doloroso) de reconhecimento da velhice. Mais de uma vez, e a mais de uma pessoa, Clarice Lispector deu provas de não aceitar com tranquilidade a perda da beleza da juventude. No final da vida, passou a ter uma rotina de reclusão, evitando até mesmo os passeios pelo bairro. Falava do passado com o rancor de quem perdeu ao longo do tempo, e não de quem ganhou. Era vaidosa ao extremo de ser maquiada mesmo dormindo, dopada de tranqüilizantes. (...) Interessante também conhecer pelo livro que o processo de criação de umas das maiores escritoras de língua portuguesa era cercado de caos. Clarice trabalhava em meio à bagunça dos filhos Paulo e Pedro, que a interrompiam constantemente. Quando não eram os meninos, era o telefone que tocava, a empregada que fazia barulho enquanto limpava os cômodos do apartamento. As anotações da escritora ficavam espalhadas por toda a casa. Mesmo assim, e contra toda lógica, Clarice Lispector escreveu alguns dos livros mais importantes da literatura brasileira. Conseguiu com sua escrita ser elevada ao lugar de semi-Deus - espaço que tomou consciência de ocupar. E que Benjamin Moser, que seu primoroso trabalho de imersão à vida da musa, apresenta de forma clara, simples e bastante inspiradora."
*
E, por último, a última e IMPERDÍVEL ENTREVISTA,
em 1977 (o ano de seu falecimento),
à TV Cultura:

"Duas almas, ai de mim!,
habitam meu peito."
(De O LOBO DA ESTEPE, um dos livros favoritos dela)