quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Se isso não for AMOR, e com letras maiúsculas...

... eu realmente não sei o que pode ser.
*
Deixo, então, que a reportagem da FOLHA,
e as fotos, falem por si:

"O fotógrafo argentino Alejandro Kirchuk, 24, registrou durante três anos o cotidiano dos seus avós maternos, após descobrir que a avó travava uma batalha contra o mal de Alzheimer.
A série de imagens revela as mudanças no comportamento da avó, Mónica, e o amor do marido, Marcos, que, depois do diagnóstico da doença, em 2007, deixou tudo para acompanhá-la até a morte, no ano passado.
'Os protagonistas [desta série] são meus avós. Mas principalmente ele e seu amor por ela', disse Kirchuk à BBC Brasil. 'Para mim, a atitude dele foi um descobrimento especial e que mostrei nas fotos.'
A obra foi chamada de 'La Noche que me Quieras' e ganhou o primeiro lugar do concurso World Press Photo 2011 na categoria 'Vida cotidiana'.
Segundo o fotógrafo, o título é uma referência ao verso que a avó cantava mesmo quando a doença já estava em estágio avançado, do tango 'El Día que me Quieras', famoso na voz de Carlos Gardel.
'Isso confirma que os dois viviam uma história de amor', afirmou Kirchuk.
Mónica morreu aos 87 anos e Marcos, que é médico aposentado, tem 89 anos. Ambos ficaram casados durante 65 anos.
REGISTROS DETALHADOS
Kirchuk conta que tirou centenas de fotos do casal. A seleção enviada ao concurso mostra desde os primeiros momentos da avó com os sinais da doença degenerativa até a etapa terminal.
Quando ele iniciou o trabalho, Mónica sofria de Alzheimer havia dois anos, mas levava uma vida quase normal. Porém, recordou o fotógrafo, com falhas na memória.
'Às vezes, ela me reconhecia. Às vezes, não. Com o tempo, já não me reconhecia mais. Mas à sua maneira reconhecia meu avô que a acompanhou em cada detalhe do cotidiano.'
O fotógrafo diz que a imagem 'mais forte' de sua avó é um retrato tirado de perto, quando ela já estava abatida, no ano passado.
A foto da avó com olhos que parecem marejados foi tirada dois ou três meses antes de sua morte. 'Era como ela olhava o mundo. Um olhar triste que marcou seu último ano de vida', disse.
HOMENAGEM AO AVÔ
O desfecho da obra é uma imagem de Marcos sozinho olhando o jardim da casa onde morou com Mónica.
O fotógrafo registrou e acompanhou Marcos em todos os momentos, inclusive levando flores para a avó no cemitério onde Mónica foi sepultada.
'Esta série é uma homenagem a ele. Ele ficou com ela até o último minuto.'
Quando perguntado sobre o que o avô achou do projeto, Kirchuk respondeu que 'ele achou estranho no início'.
'Depois soube entender a importância do registro deste amor e de se mostrar ao mundo que este trabalho pode estimular que idosos sejam apoiados em casa, e não enviados a um asilo', afirmou."

Marcos leva comida para Mónica, que se encontra deitada na cama; (...) ela só conseguia comer alimentos liquidificados.

Por mais de três anos, Marcos alimentou a esposa, Mónica; "aprendi a ser paciente cuidando dela e alimentando-a, cada refeição durava uma hora".

Marcos olha antigas fotografias do casal que mantém na sua carteira; quando não estava cuidando de Mónica, o avô diz que ficava "absorvido durante todo o dia".

O carinho recebido pelo marido e os parentes é praticamente a única forma de estabelecer uma relação com Mónica, ainda que por alguns segundos apenas.

Marcos segura a mão de Mónica enquanto passam do quarto à sala de estar; apesar do cuidado intensivo, Marcos disse que não via outra possibilidade de tratamento; "aqui ela é tratada como uma princesa, aqui ela tem tudo".

Mónica morreu em 13 de julho, nos braços do marido, na casa do casal em Buenos Aires, cinco anos após ser diagnosticada; Marcos visita o túmulo de sua companheira pelo menos uma vez por mês.

Após a partida de Mónica, Marcos enfrenta provavelmente o momento mais duro de sua vida; não somente pela solidão e a saudade da esposa, mas de, aos 89 anos, dar início à reconstrução de sua vida.
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Sem palavras.
Mesmo.
Me fez lembrar de uma das cenas do iraniano A SEPARAÇÃO, ainda em cartaz, em que a personagem Simin, na tentativa de que o casal deixe o Irã, argumenta com Hader, seu esposo, em relação a seu pai (que também sofre de Alzheimer), mais ou menos nestes termos:
"mas ele nem lembra que você é filho dele"...
Ao que Hader responde:
"mas EU sei que ele é meu pai".
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