sexta-feira, 16 de março de 2012

O "politicamente correto"...


Juro: não dá para entender um país como o nosso, no qual se permite a proliferação dos "Rafinhas Bastos", com suas gracinhas ofensivas, e a realização de um "espetáculo" de "comédia" intitulado PROIBIDÃO (o que, por si só, já dá para antever o nível da bagaceira temática), onde são ofendidos "negros, gays, deficientes e mulheres" (conforme noticiado AQUI, após a coisa ter virado caso de polícia), mas, AO MESMO TEMPO, se levanta a bandeira do "politicamente correto" em toooooooodos os outros setores, chegando-se à absurda determinação judicial de retirada, do dicionário HOUAISS, de algumas expressões que definiam o termo cigano (detalhe: com a indicação expressa de que eram pej, pejorativas), como todo o mundo já ficou sabendo...
:(
Por isso, resolvi transcrever um artigo, publicado no blog do cartunista NANI que, penso, seja muito útil à reflexão, num momento em que nosso país vive o chatérrimo "8 ou 80". Não há meio termo. Não há discernimento.
E... ninguém merece isso. Aí vai:

O politicamente correto é a censura que não ousa dizer o nome.
Antigamente medir as palavras era um termo que se usava para você não melindrar as pessoas. A gente media, se fosse o caso, e todos ficavam felizes. Hoje jogaram um inseticida no dicionário e mataram milhares de palavras. O Politicamente Correto inventou o palavricídio. Matam palavras como se matam baratas. Essa palavra não pode mais, essa palavra é ofensiva e vamos te processar e ganhar dinheiro às suas custas. É a indústria do processo.
Não posso falar aleijado, tenho que falar cadeirante. Não tinham palavra melhor? Cadeirante. Parece um cara que não pode ver uma cadeira que vai lá e se senta. Dá idéia de preguiçoso. Cairia bem num filme policial. “Tira essa bunda gorda daí e vamos prender o bandido, seu cadeirante”. Ou numa repartição pública: ele é um funcionário cadeirante, o paletó dele está na cadeira e ele voando por aí.
O meu medo é que essas novas ordens gramaticais se tornem retroativas e alcancem as grandes músicas do nosso cancioneiro.
Imagine como seria a música do Jorge Bem:
“A banda do José afrodescente no diminutivo – no sentido carinhoso, não depreciativo – chegou/ para animar a festa/ Zambá, zambé, zambi,zambó, zambu... Esse esse esse é o José Afrodescendentinho...”
Não dá.
Afrodescendente do cabelo antes da chapinha/ qualé o pente que te penteia?/ qualé o pente que te penteia?
Sucesso da Elis Regina:
“Hoje cedo, na rua do Ouvidor/ quantos calcasianos eu vi/ Eu quero um afrodescente de cor... Ô Deus afrodescente... do Congo, ou daqui...”
A música Amélia do Ataulfo Alves e Mario Lago, depois da lei Maria da Penha, foi colocada numa cápsula do tempo e explodida no espaço. Lembram? Amélia achava bonito não ter o que comer. Esse trecho deveria ser o hino das anorexas ou bulímicas.
Favela também não pode. Hoje tem que dizer comunidade. Gente, comunidade não dá samba. Imaginem músicas recicladas.
“A comunidade não tem vez/ e o que ela fez/já foi demais/ mas olhem bem vocês/ quando derem vez a comunidade toda a cidade vai cantar, vai cantar...”
Parece propaganda do Governo.
“Tristeza, mora na comunidade/ às vezes ela sai por aí...”
“Eu sou o samba/ a voz da comunidade sou eu mesmo sim, senhor...”
É por isso que reclamam que os bons sambam morreram. Claro.
(Disse claro, mas não estou discriminando os escuros e os pardos)

UM POUCO DE SENSO CRÍTICO
NÃO FAZ MAL A NINGUÉM...