sexta-feira, 23 de março de 2012

A VINGANÇA DO ESPELHO (Zezé Macedo)


Então...
Nesta última 4a-feira,
a atriz Betty Gofman esteve no Programa do Jô
para divulgar a peça
"A Vingança do Espelho: a história de Zezé Macedo",
em cartaz em São Paulo.
*
E, como a esmagadora maioria do mortais, a minha associação à Zezé Macedo sempre fora, apenas, a "Dona Bela" (aquela do bordão: "só pensa naquiiiiiiiiiiiiiiiiiilo"), da Escolinha do Professor Raimundo, personagem imortalizado pelo Chico Anísio, que faleceu há alguns minutos...
:(
Mas, na entrevista, descobri uma Zezé Macedo muito mais complexa do que a imagem "caricata" que se popularizou na TV, com uma história marcada por um sofrimento gigante: a perda do seu bebê, de 1 aninho, que, ao cair dos braços da avó, teve traumatismo craniano com morte imediata, o que, após um grito de pavor e um tempo de afonia, afetou seriamente as suas cordas vocais... Daí aquela voz "estranha", que serviu, tão bem, ao humor.
*
E, então, neste dia de luto para a comédia, em homenagem à Zezé e ao Chico, resolvi transcrever o poema que empresta título ao espetáculo, que, de verdade, me emocionou muitíssimo, na interpretação da Betty Gofman:
"Voltei, um dia, à casa onde nasci.
Parei junto ao umbral,
Tentando ver, na tela da memória,
A história dos meus dias distantes.
O meu piano negro, onde eu dedilhava,
O quarto de mamãe, uma estante,
A janela por onde Fifinho dizia-me bom dia,
O meu gato,
As minhas bonecas,
Nada mais existe do que existiu outrora.
Outros nomes,
Outra gente.
Mas, de repente, vi um espelho pendurado na parede.
Aquele mesmo espelho onde eu, faceira,
Por uma tarde inteira, mirava o próprio rosto, fascinada.
Os meus cabelos negrejando, azulados ao sol,
No riso que plantava em minha boca.
Pela hora do arrebol, tentei aproximar-me, assim, do espelho,
Porém, diante dele, vi um vulto estranho de mulher.
Aonde foi que vi aquele rosto?
Aonde foi que notei a mim mesma?
Aquele olhar sem brilho,
Aquela boca pálida...
Esperei que a intrusa se afastasse,
mas... ai, sempre lá estava, como uma maldição,
A figura tão trágica, lembrando uma decepção.
Súbito, recuei num grito,
E, num grito de pavor e de horror,
Vi que a mulher que o espelho refletia
Era eu, era eu mesma...
Os meus cabelos negros se apagaram,
A minha silhueta gentil se transformou,
Ah, como ainda sinto brilhar dentro de mim a primavera!
Se a minha vida inteira eu vivi à espera de um bem que não chegou,
Esses lábios trêmulos, marcados por beijos tão fatais,
Essas mãos que embalaram um filho pequeno,
Apertado, ainda, contra o peito,
Querem conter um temporal desfeito...
Ah, morre, coração...
Maldito coração que só sofreu,
E jamais esqueceu...
Baionetas de luz varam agora o espelho,
No reflexo roxo do poente,
Irreverente,
A repetir, alucinadamente:
Não, não, não! É mentira! É mentira!
Joguei o espelho ao chão.
O espelho estilhacei,
E sangrei os dedos...
E, como uma canção de cristal que eu parti,
Vi minha própria imagem refletida,
Multiplicada,
Escarnecida,
Ali, então,
Nos cacos que rolaram pelo chão..."

LINDO, NÉ?