terça-feira, 28 de junho de 2016

TAG - EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS - maio 2016

Este foi o kit que a TAG enviou-nos no mês passado (maio), com a obra 
O CAMINHO ESTREITO PARA OS CONFINS DO NORTE
do australiano Richard Flanagan.

Vamos lá: 
tenho muita dificuldade com narrativas que fogem ao “padrão convencional” mais “linear”, se é que posso dizer assim...

Então, devo admitir que a primeira parte do livro foi extremamente complicada para mim, o que me levou a demorar uma eternidade para engatar a leitura (afffffffffffffff!). 

E, por várias vezes, pensei seriamente em abandoná-la porque as “idas e vindas” desse início da história demandavam uma atenção redobrada e um esforço hercúleo para tentar não ficar mais perdida que cachorro que caiu da mudança. E, para piorar, quando finalmente me acostumei ao estilo narrativo, o livro entrou numa pegada “romântica” que, naquele momento, me incomodou um monte.

Maaaaaaaaaaaaaaaas... 
Eu resisti! 

Animada e incentivada pelos comentários que eu ia lendo no grupo de discussão do facebook, eu resolvi levar a leitura adiante para saber o que viria depois dessas duas primeiras fases mais xaropes controversas.

E... 
Caramba, 
eu jamais me perdoaria se tivesse abandonado o livro! 
Que história, que soco no estômago! 

Especialmente a partir da metade do livro, tudo, absolutamente tudo, começa a fazer uma baita sentido! E até o tal romance que me desgostou tanto (primeiro, porque envolveu uma traição e, segundo, porque a narrativa me pareceu melada e fofa demais, face a toda a crueza da obra) teve sua razão de ser. Talvez aquela história de “amor”, mesmo que “torta” e estranha, tenha sido o único jorro de sentimentos ternos em meio à constatação do que a guerra – qualquer guerra – faz com as pessoas, roubando-lhe os últimos resquícios de humanidade.

Este é um livro que apresenta, com RI-QUE-ZA de detalhes, as situações absurdas às quais os prisioneiros de guerra australianos foram submetidos durante a construção da Ferrovia da Morte, não apenas pelos maus tratos dos japoneses, mas – também – pelos crescentes e contínuos surtos de epidemias tropicais, especialmente o cólera, cujos sintomas são descritos com (desesperadoras) minúcias.

Por isso:

SE VOCÊ NÃO TEM ESTÔMAGO FORTE,
NÃO RECOMENDO A LEITURA.
MESMO.

Mas, se isso não for um problema, 
te asseguro que será uma das melhores obras
 que você lerá em toda a sua vida! 

Porque a guerra, afinal, é apenas o pano de fundo. O livro é muito mais do que isso. Não é apenas um livro de guerra. É, fundamentalmente, um livro sobre a natureza humana em seu estado mais primitivo. É um mergulho naquilo que de mais nobre – e mais abjeto também – todos nós carregamos.

Minha avaliação pessoal:
⭐⭐⭐⭐⭐

E, para finalizar, deixo-lhes um "aperitivo":
“Isso deixava Choi Sang-min zangado com o mundo e com eles quando morriam. Deixava-o zangado porque não era culpa sua não haver comida ou remédios. Não era culpa sua haver malária ou cólera. Não era culpa sua eles serem escravos. Havia destino, e fora o destino deles e o seu estar ali, e fora o destino deles morrer ali, e o seu destino morrer aqui. Ele só tinha de fornecer o número de homens que os engenheiros japoneses precisavam a cada dia, garantir que fossem trabalhar e mantê-los no trabalho que os engenheiros japoneses queriam que fosse feito. E ele fez seu trabalho. Não havia comida e não havia remédios e a linha tinha de ser construída e o trabalho tinha de ser feito e as coisas terminaram como tinham de terminar para eles e para ele.”