terça-feira, 12 de julho de 2016

TAG - EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS - junho 2016


Depois da traulitada na cabeça que foi o livro de maio, recebemos este aqui,
A BALADA DE ADAM HENRY,
mais um que eu amei (!!!!), do inglês Ian McEwan (outro autor do qual eu ainda não havia lido nada)uma leitura direta, organizada, fluida, rápida, precisa, até aparentemente superficial; mas, não se engane, nem por isso, leve ou fácil. 

O tema central, definitivamente, é a questão da recusa de um jovem (quase adulto) - e de seus pais, todos Testemunhas de Jeová - ao recebimento de transfusão de sangue, indispensável ao tratamento de uma leucemia em estágio avançado. Mas esse é apenas o tema central, como eu disse. Ao redor dele, gravitam muitas outras questões que envolvem matrimônio, profissão, confusão de sentimentos, expectativas frustradas, culpas, mágoas etc., que tornam a obra ainda mais interessante e complexa!!!

Todos os meses são criados novos grupos da TAG, no facebook, para a discussão da obra enviada. E, desta vez, vou tomar a liberdade de transcrever aqui, na íntegra, um dos comentários que li, que, na minha opinião, não poderia ter resumido melhor o meu próprio sentimento em relação à obra.

Agora, importante: 
se você pretende ler o livro e não curte SPOILERS
pare agora!!!! 
Depois, não diga que não o avisei!!!!! 
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

"Sempre senti o McEwan como um autor que aponta para sentimentos mais através das ações de seus personagens do que o contrário. A Balada de Adam Henry dá realmente uma sensação de superficialidade, até porque a própria protagonista está sempre se impedindo de ficar focada muito numa coisa, seja nos diversos casos de que trata, seja na relação com o marido. E a narrativa de certa forma acompanha isso, aquele cotidiano atribulado, em que casos antigos e memórias voltam em flashes e somem quase tão rapidamente quanto chegaram.


Por tratar os pensamentos e emoções dos protagonistas de forma bem direta, no começo a gente não percebe que tem uma coisa sempre escondida por trás da praticidade cotidiana dos personagens, o único detalhe que o autor nunca cita diretamente.

O momento em que Fiona se foca mesmo em algo, além da boa sequência dela com o garoto no hospital (e são de fato as duas cenas catárticas da narrativa, que têm uma relação bem próxima), é no final, então eu até entendo que seja exatamente quando há uma explosão, ligeiramente piegas inclusive, em que ela se abre pela primeira vez para analisar mais profundamente Henry e os sinais que ele tinha mandado, assim como o que significa seu casamento, uma relação que tem muito mais de conforto do que de paixão. 

Aliás, gosto de como funciona antes o relacionamento entre ela e o marido (que no início pode passar a impressão de ser um “garanhão” intragável, mas logo ganha uma aura um tanto patética), quase uma convivência entre duas crianças birrentas, incapazes de se comunicar para além das pequenas banalidades cotidianas, ambos precisando se recobrir da civilidade sem a qual não seriam os adultos respeitados que acreditam ser.

Achei que a explosão no final é uma despedida da ideia de ter um filho, pensamento que ela ainda não tinha conseguido abandonar totalmente (o choro começa quando o marido pergunta se ela estava apaixonada por Adam, impressão talvez compartilhada com o leitor, mas ao invés de paixão ela logo evoca a inocência do garoto). Porque senti que o livro, assim como tudo que li do McEwan até agora, não é sobre o grande conflito que ele levanta, as instituições, crises familiares, decisões quase impossíveis etc. Acho que isso é a gordura, um assunto pelo qual ele tem interesse e que ajuda a estruturar a história, mas não exatamente o tema de que quer tratar. É sim sobre a vida familiar da protagonista. 

O Adam Henry, de uma forma até meio desonesta por parte de Fiona, mas também inconsciente, é uma desculpa para ela resolver o relacionamento com o marido e finalmente botar para fora a frustração pela falta de um filho, algo que é levantado antes como uma questão aparentemente secundária, porque ela não quer pensar, não quer admitir como aquilo realmente a faz sentir. Então o garoto chega e se oferece para dormir em um quartinho na casa deles, com ela e o marido, fazendo um papel quase de filho mesmo. 

Eu desconfio que isso é evocado no momento em que a decisão sobre o futuro dele é retirada das mãos dos pais e colocada nas dela. Por algumas horas, Fiona foi de fato a guardiã do futuro do garoto, e as brigas subsequentes com os pais mostram que, após o encontro entre Adam e ela, Adam começou a questionar a autoridade paterna e a considerar a juíza como verdadeira merecedora do posto. Indo até um pouco mais além, ao questionar sua fé, de uma forma metafórica, ele abandona a igreja e tenta colocar sua vidas nas mãos do Estado e da Justiça.

(Autor: Leonardo Maran Neiva)"

Minha avaliação pessoal:
⭐⭐⭐⭐⭐